sábado, 25 de agosto de 2007

saramago no chiado

fui portador de umas fitas para josé saramago a pedido da jornalista cremilda medina. entrevistas que o escritor dera a rádios brasileiras quando de sua então última visita ao brasil. marquei por telefone um encontro. ele escolheu uma livraria no tradicional bairro do chiado, lisboa. ventava muito e as calçadas de pedras portuguesas estavam em obras, uma areia só. tomamos um cafezinho, breve conversa, entreguei-lhe as fitas e pude colher uma dedicatória no seu então recente 'o ano da morte de ricardo reis'. contei-lhe que meu quarto no residencial horizonte, onde estava hospedado, era um 201, como o do personagem ricardo reis. disse-lhe também que havia percorrido alguns pontos do itinerário de reis. saramago escreveu então na minha edição da editora caminho: ' ao josé guilherme também habitante de um 201 - agora neste portugal lírico e fantasmático, com um abraço do josé saramago'. era 27 de maio de 86. voltei a encontrá-lo no fim do ano, em são paulo, no lançamento do seu 'a jangada de pedra'. antes disso tinha assistido à aula sua e de outros escritores portugueses na eca/usp. e visto pequenas flores amarelas a caminho de lousã, conhecidas como saramago.

pescarias do kenji

kenji e adélia nishimura organizavam pescarias com piquenique. e várias vezes escalamos, eu e famílias, barrancos com pequenas varas e cestas em busca de sombra e peixe. kenji trabalhava com meu pai, na neiva. e conheci na sua casa a magia de um altar japonês. as pescarias eram movimentadas com torneios. guardo uma medalha, prêmio lambari. não me lembro se pesquei o maior ou mais. mas isso não faz diferença agora.

só letreiros

vi certa vez a fúria do tocantins, na amazônia. as águas do rio afogando a parte baixa de tucuruí. só telhados à mostra. muitas famílias desabrigadas. no percurso de voadeira, sumiço da rua escorre água... a discoteca hi-fi era só letreiro. não foi a maior cheia, me contaram. a 'água grande' de 1926 e a de 1980 foram arrasadoras. nesta última foram 61 mil metros cúbicos por segundo. o rio sobe e desce entre dezembro e março. a primeira onda é a cheia de santa luzia, próxima à festa da santa, em 13 de dezembro. em fevereiro o nível baixa, mas volta geralmente a subir com mais força em março, a cheia de são josé. é o paraíso dos táxis fluviais, dos botes e voadeiras. o porto e a feira mudam de lugar. o litro do açaí sobe de preço.

tacacá da tia neca

enquanto tia neca mexia nos caldeirões, dava sua receita do tacacá, um dos pratos mais famosos do pará, piscina amarela para camarões secos. eu a conheci numa banquinha de rua em tucuruí, provando uma cuia desse caldo quente e revigorante. os ingredientes básicos: tucupi, goma de tapioca, jambu e camarão. o tucupi é resultado da decantação da mandioca ralada, a parte que boiará. a parte sólida é a massa de tapioca, que não entra na receita da tia neca. ela ferve o tucupi com sal, cebolinha, alfavaca, chicória, coentro e cebola, enquanto numa outra panela prepara com água e sal e polvilho de tapioca uma goma. O jambu (uma erva de folhas ásperas) é cozido em outra vasilha. os ingredientes se encontram é na cuia. entram o tucupi, a goma de tapioca, o galhinho de jambu e os camarões secos, devidamente trajados para a travessia.

carta de buda

Buda
Csalogany u. 216 11 graus lá fora
1. nov. de 92

Ana,

De uniforme verde (seria uma tenente?), ela entrou na cabine do trem, retocou a maquiagem num espelhinho minúsculo e só depois carimbou meu passaporte. Agora, território húngaro, território dos meninos da rua Paulo. Meu território. Seu.
Estou num apartamento no centro da cidade. O ap. é do Dr. Tóth, que eu não conheço, não. Quem me trouxe para cá foi Püspök. Vim na confiança. Chovia e estava escuro quando cheguei. Embarquei então num carrinho cinza (marca registrada do Leste), afivelei os cintos e Züpct!, voei com miss Püspök para este apartamento. Se não houvesse o Danúbio, a rua Csalogany daria direto no Parlamento, lá em Pest.
Para chegar no quarto andar, entra-se num minúsculo elevador onde mal cabem duas pessoas. O bicho vai suado, faz barulhão. Ao entrar no apartamento, surpresa! Foi como passar da pré-história para a era da informática. apartamentinho simpático. 2 camas com acolchoados trabalhados. Uma estante com livros - todos em húngaro. Tapetes, um rádio, uma televisão, uma cozinha mínima (para o chá, explica miss Püspök). Uma geladeira. Bom banheiro. Tudo quentinho e aconchegante. Tudo pago, acertado antes. Meu nome entrou num caderninho singelo, verde, ao lado de gente do mundo inteiro que usou este mesmo espaço. Püspök anotou até o número do meu passaporte. Mas queria mesmo era dólar. Fez o câmbio, me vendeu sua moeda, vendeu passes do metrô, me deu um mapa da cidade.
Miss Püspök é Judit, engenheira de alimentos que, para livrar um por fora, vai até a estação caçar gente para o bonitinho ap. do Dr. Tóth.
Não precisei procurar por toalhas. Elas estavam sobre a cama. Aprendi os segredos das sete chaves. Negócio acertado, não verei mais Püspök. Deixarei as chaves penduradas no cabide quando partir.
Andei pela cidade o dia inteiro. E é difícil dizer de que ângulo a cidade é mais bonita. A caminho da Citadella, as árvores estão agora amarelas de frio - uma atmosfera que me toca. Fiquei um tempão sentado lá em cima num banquinho, contemplando o Danado Danúbio, que faz travessias e travessuras até o Mar Negro. O Danúbio não é azul como o da valsa. É verde claro comom os olhos de Miss Püspök.
E o festival de pontes, então? Você atravessou todas? Acabei de chegar de Pest pela ponte de pedra, dos leões. Vim em comitiva de húngaros passeando com seus cachorros. Foi uma noite de menos frio. de goulash e páprika.
Já consigo decifrar a multidão de torres da colina iluminada. Mas é mesmo de dia que alguns detalhes se revelam. Mathias Corvinus, rei da Hungria um dia, tinha como símbolo, adivinha!, um corvo. E do corvo não escapou uma parede inteira da igreja, a dele.
Na TV, ouço um filminho antigo do Zorro, em húngaro. Com direito a sargento Garcia (seria sargento a moça que carimbou meu passaporte no trem?)
Fotografei uma Útca com seu nome, que se põe à minha frente a cada esquina desta viagem.
(carta inacabada)

não toque nas amoreiras

zeus estava atento. ao subirmos pela lateral do anfiteatro de delfos, irresistíveis amoreiras com seus frutos gigantes, suculentos, roxos de maduros se ofereciam. para provar das amoras pregadas nos galhos, foi necessário sujar as mãos e a boca de vermelho. e carregar durante todo o dia as marcas da invasão do jardim sagrado.