quinta-feira, 18 de outubro de 2007

gavinhas enroscadas no meu coração

memória recente: que mulher, senão a minha, pode procurar num dicionário de botânica o nome daquela molinha que se enrosca nas folhas das parreiras e outros seres verdes? gavinhas para sempre enroscadas em meu coração.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

pratos, volver

ana comprou pratos coloridos. um diferente do outro, para uma mesa de almodóvar. tantos sóis à espera de belezas... uns com bolas pretas. outros, motivos de disputa. a mesa à la volver de ana abre o apetite dos sentidos.

sábado, 25 de agosto de 2007

saramago no chiado

fui portador de umas fitas para josé saramago a pedido da jornalista cremilda medina. entrevistas que o escritor dera a rádios brasileiras quando de sua então última visita ao brasil. marquei por telefone um encontro. ele escolheu uma livraria no tradicional bairro do chiado, lisboa. ventava muito e as calçadas de pedras portuguesas estavam em obras, uma areia só. tomamos um cafezinho, breve conversa, entreguei-lhe as fitas e pude colher uma dedicatória no seu então recente 'o ano da morte de ricardo reis'. contei-lhe que meu quarto no residencial horizonte, onde estava hospedado, era um 201, como o do personagem ricardo reis. disse-lhe também que havia percorrido alguns pontos do itinerário de reis. saramago escreveu então na minha edição da editora caminho: ' ao josé guilherme também habitante de um 201 - agora neste portugal lírico e fantasmático, com um abraço do josé saramago'. era 27 de maio de 86. voltei a encontrá-lo no fim do ano, em são paulo, no lançamento do seu 'a jangada de pedra'. antes disso tinha assistido à aula sua e de outros escritores portugueses na eca/usp. e visto pequenas flores amarelas a caminho de lousã, conhecidas como saramago.

pescarias do kenji

kenji e adélia nishimura organizavam pescarias com piquenique. e várias vezes escalamos, eu e famílias, barrancos com pequenas varas e cestas em busca de sombra e peixe. kenji trabalhava com meu pai, na neiva. e conheci na sua casa a magia de um altar japonês. as pescarias eram movimentadas com torneios. guardo uma medalha, prêmio lambari. não me lembro se pesquei o maior ou mais. mas isso não faz diferença agora.

só letreiros

vi certa vez a fúria do tocantins, na amazônia. as águas do rio afogando a parte baixa de tucuruí. só telhados à mostra. muitas famílias desabrigadas. no percurso de voadeira, sumiço da rua escorre água... a discoteca hi-fi era só letreiro. não foi a maior cheia, me contaram. a 'água grande' de 1926 e a de 1980 foram arrasadoras. nesta última foram 61 mil metros cúbicos por segundo. o rio sobe e desce entre dezembro e março. a primeira onda é a cheia de santa luzia, próxima à festa da santa, em 13 de dezembro. em fevereiro o nível baixa, mas volta geralmente a subir com mais força em março, a cheia de são josé. é o paraíso dos táxis fluviais, dos botes e voadeiras. o porto e a feira mudam de lugar. o litro do açaí sobe de preço.

tacacá da tia neca

enquanto tia neca mexia nos caldeirões, dava sua receita do tacacá, um dos pratos mais famosos do pará, piscina amarela para camarões secos. eu a conheci numa banquinha de rua em tucuruí, provando uma cuia desse caldo quente e revigorante. os ingredientes básicos: tucupi, goma de tapioca, jambu e camarão. o tucupi é resultado da decantação da mandioca ralada, a parte que boiará. a parte sólida é a massa de tapioca, que não entra na receita da tia neca. ela ferve o tucupi com sal, cebolinha, alfavaca, chicória, coentro e cebola, enquanto numa outra panela prepara com água e sal e polvilho de tapioca uma goma. O jambu (uma erva de folhas ásperas) é cozido em outra vasilha. os ingredientes se encontram é na cuia. entram o tucupi, a goma de tapioca, o galhinho de jambu e os camarões secos, devidamente trajados para a travessia.

carta de buda

Buda
Csalogany u. 216 11 graus lá fora
1. nov. de 92

Ana,

De uniforme verde (seria uma tenente?), ela entrou na cabine do trem, retocou a maquiagem num espelhinho minúsculo e só depois carimbou meu passaporte. Agora, território húngaro, território dos meninos da rua Paulo. Meu território. Seu.
Estou num apartamento no centro da cidade. O ap. é do Dr. Tóth, que eu não conheço, não. Quem me trouxe para cá foi Püspök. Vim na confiança. Chovia e estava escuro quando cheguei. Embarquei então num carrinho cinza (marca registrada do Leste), afivelei os cintos e Züpct!, voei com miss Püspök para este apartamento. Se não houvesse o Danúbio, a rua Csalogany daria direto no Parlamento, lá em Pest.
Para chegar no quarto andar, entra-se num minúsculo elevador onde mal cabem duas pessoas. O bicho vai suado, faz barulhão. Ao entrar no apartamento, surpresa! Foi como passar da pré-história para a era da informática. apartamentinho simpático. 2 camas com acolchoados trabalhados. Uma estante com livros - todos em húngaro. Tapetes, um rádio, uma televisão, uma cozinha mínima (para o chá, explica miss Püspök). Uma geladeira. Bom banheiro. Tudo quentinho e aconchegante. Tudo pago, acertado antes. Meu nome entrou num caderninho singelo, verde, ao lado de gente do mundo inteiro que usou este mesmo espaço. Püspök anotou até o número do meu passaporte. Mas queria mesmo era dólar. Fez o câmbio, me vendeu sua moeda, vendeu passes do metrô, me deu um mapa da cidade.
Miss Püspök é Judit, engenheira de alimentos que, para livrar um por fora, vai até a estação caçar gente para o bonitinho ap. do Dr. Tóth.
Não precisei procurar por toalhas. Elas estavam sobre a cama. Aprendi os segredos das sete chaves. Negócio acertado, não verei mais Püspök. Deixarei as chaves penduradas no cabide quando partir.
Andei pela cidade o dia inteiro. E é difícil dizer de que ângulo a cidade é mais bonita. A caminho da Citadella, as árvores estão agora amarelas de frio - uma atmosfera que me toca. Fiquei um tempão sentado lá em cima num banquinho, contemplando o Danado Danúbio, que faz travessias e travessuras até o Mar Negro. O Danúbio não é azul como o da valsa. É verde claro comom os olhos de Miss Püspök.
E o festival de pontes, então? Você atravessou todas? Acabei de chegar de Pest pela ponte de pedra, dos leões. Vim em comitiva de húngaros passeando com seus cachorros. Foi uma noite de menos frio. de goulash e páprika.
Já consigo decifrar a multidão de torres da colina iluminada. Mas é mesmo de dia que alguns detalhes se revelam. Mathias Corvinus, rei da Hungria um dia, tinha como símbolo, adivinha!, um corvo. E do corvo não escapou uma parede inteira da igreja, a dele.
Na TV, ouço um filminho antigo do Zorro, em húngaro. Com direito a sargento Garcia (seria sargento a moça que carimbou meu passaporte no trem?)
Fotografei uma Útca com seu nome, que se põe à minha frente a cada esquina desta viagem.
(carta inacabada)

não toque nas amoreiras

zeus estava atento. ao subirmos pela lateral do anfiteatro de delfos, irresistíveis amoreiras com seus frutos gigantes, suculentos, roxos de maduros se ofereciam. para provar das amoras pregadas nos galhos, foi necessário sujar as mãos e a boca de vermelho. e carregar durante todo o dia as marcas da invasão do jardim sagrado.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

barbera

degustamos um barbera d'asti, de canelli. terroir presente na rolha. e que se expande, doce. e vibra com uma massa com aromas da puglia.

beatrice russo

se me perguntassem, em qualquer ilha, em qualquer céu-mar, qual das maravilhas mereceria um lembrete radiofônico, eu lembraria de ondas, de azul celeste, de curvas e terras íngremes, mas faria como mario ruopollo, instigado por pablo neruda. diria ana, minha beatrice russo, minha beatriz de dante. e d'anunzio.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

amancaya, flor de vinho

degustamos, eu e ana, um amancaya 2005, a uva malbec vencendo a cabernet sauvignon. amancaya, aprendemos no rótulo, é uma flor usada por índias nas regiões altas dos andes. vinho equilibrado, onde o álcool - e olha que são 14 graus - não aparece. proeza de catena e rothschild. daria para guarda de mais uma meia dúzia de anos, mas há infanticidas em ação. a harmonização à mesa de caraguá, aos pés da mata atlântica, contou com um fusili a matricciana, assinado pela chef anna, com dois enes de tão encantadora é a nipo-italiana.

a catedral e o museu

estava em colônia no dia em que inauguraram o museu ludwig. ondas de aço (que brilhavam ao amanhecer) ao lado da catedral de pedra enegrecida, com sua agulha de babel. na sala de max ernst e seus amigos, estudantes faziam tarefa sentados no chão. completam o cenário ao longo do reno o arco da ponte ferroviária. três tempos em um, mais o meu.

lâmpadas de quem não ouve

o quarto alugado, num apartamento acima de uma padaria, ficava a poucos quarteirões do parque eduardo VII e da fundação calouste gulbenkian. meu quartel-general em lisboa, em 1986. a dona do apartamento alugou o quarto, com direito a roupa lavada. quando se tocava a campainha, lâmpadas se acendiam em todos os cômodos. inclusive no banheiro com azulejos cor de rosa de cima a baixo. a banheira cor de rosa era cheia sempre que o hóspede mencionava a intenção de um banho, incluído no contrato. o aluga-se li no diário de notícias, ainda hospedado no residencial horizonte.

girinos no lajeado

vó rosa morava no lajeado, uma antiga fazenda de café em botucatu. meu tio joão era o eletricista. um grande sobradão de alpendre trabalhado, com várias casas conjugadas, de funcionários da fazenda. de um lado, o imenso terreiro de café e grandes escadarias para correrias e brincadeiras de fim de semana. mas mergulhando na floresta da frente, havia um caminho que levava a um lírico bambuzal e um riacho onde o silêncio só era quebrado pela alegria da caça aos girinos, absolutamente pretos. coletados com alma científica, eu e marco os levavámos para casa, na cidade. os girinos cresciam, perdiam a inocência, criavam pernas, viravam sapos e fugiam.

tzaziki de todas as grécias

pepinos sem as sementes, ralados. alho em pedaços minúsculos (ou grandes que possam ser vistos). coalhada, sal, pimenta do reino, um risco de azeite. essa a receita de casa, que marina e paula gostam de lamber os beiços. quem me ensinou foi ana. escreveu a receita numa página de uma cadernetinha quadriculada. eu estava de partida para santorini. e ela queria que eu mergulhasse nesse creme dos deuses-chefs. foi fácil encontrar um tzaziki, que dá sabor aos souvlakis de carneiro, mas podem forrar pratos ao longo do egeu.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

ouro preto de marília

conhecer ouro preto com ana, foi como sonho de dirceu com marília, pura poesia de marília de dirceu, com chafarizes de ternas e apaixonadas letras. ficamos numa pousada de barão, o itacolomi no horizonte. as gentes de aleijadinho, a banda na praça tiradentes, um mar encapelado de telhados, os desenhos de alberto guinard (e os bilhetes para a mulher amada), o mundo de pedras do museu, o mundo de tetos das igrejas. oratórios dentro de oratórios. a cactácea ora-pro-nobis com todas as gorduras. a alma, barroca, dispensando temporariamente a simetria das volutas.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

lições de cortázar

minha professora ana me mostrou no ginásio, pela primeira vez, um texto dos cronópios. e criei um rulhinho, menos do que barulho. ingressei na literatura com a menina que comia chocolates de pessoa. e dá-lhe caixa-preta de augusto de campos e poemas de cassiano ricardo, numa combinação explosiva. tantos foram os bons momentos com o escritor argentino: a invasão de coelhos no apartamento organizado, a casa tomada, a viagem de paris a marselha com carol dunlop, as imensidões do laboratório da linguagem, as formigas nos quadros do belga alechinsky, o desgaste atômico no metrô de buenos aires... com ana, minha mulher, mais cortázar e seus caminhos na cidade dos prêmios e dos cronópios e famas.

temperos de bérgamo

bérgamo, terra de donizetti e dos bronzieri meus amigos, tem um prato calórico mas delicioso com cotecchino. também coelho, polenta e um queijo da terra. riccardo se alimenta à base de arroz, preparando seus risotti até com cerveja. até parece natural de vercelli. fã do atalanta local (e do milan), me levou a um jogo-treino no fim do mundo. nas festas dos partidos políticos, muita cerveja e boa massa em mesas comunais, para regozijo do gramsci do cartaz. liscio e brincadeiras com gansos. num restaurante montado num antigo estábulo, bife de cavalo. pizza de funghi. e bom momentos no café del tasso, no centro histórico da cittá vecchia.

acordeão cigano

comprou-se o acordeão para ajudar o cigano. essa a história que ouvi. e lá fui eu ao moscogliato, maestro de cabeleira branca e ajeitada como beethoven, oculinhos pequenos na ponta do nariz, estudar música, aprender a solfejar, tudo para, depois, tocar. mas achava chato essa ante-sala do sucesso. e nunca cheguei a manejar a sanfona. no grupo escolar raphael de moura campos, na bandinha, toquei chocalho e, depois, fui promovido para a caixa. calça branca, colete laranja, chapéu laranja com penacho, gravata borboleta preta a la batmasterson. competição entre escolas. mais velho, flauta doce com o careca, fotógrafo que registrou bons momentos de são josé. no sobradinho, sua casa, aulas diretamente com o instrumento. e, de kombi, rodada de apresentações natalinas em hospitais.

gramadinho

gramadinho é uma cidadezinha, um distrito talvez, que fica no caminho que nos leva a são miguel arcanjo. gramadinho também foi sinônimo de bolinho de frango, nas nossas providenciais paradas de viagem. família reunida no mercedinho preto com cara de táxi londrino, ou nas vemaguetes branca e cor de vinho. bolinho de massa de milho, frito, recobrindo pedaços inteiros de frango, inclusive miúdos. meu pai gostava quando a surpresa era uma boa moela. bar-restaurante de estrada, nos idos anos 60. e agora uma surpresa: desde dezembro de 2005, depois de uma "sessão tranqüila" na câmara de vereadores de itapetininga, o bolinho de gramadinho foi declarado "patrimônio cultural do município".

sacrifício dos frangos

frangos eram vendidos vivos. mas em casa ninguém tinha a coragem de matá-los. a vizinha dona dulce (mulher do seu herculano) tinha. os frangos eram passados pelo muro. o sacrifício brutal podia ser visto de longe. nós, meninos, lá no portãozinho, mirávamos na vassoura, no fim do corredor. era com ela que dona dulce finalizava a tragédia, quando não conseguia destroncar o pescoço da ave numa boa. a vassoura como uma gangorra no pescoço do frango, os pés, um de cada lado.

livro de borges

a minha edição do livro dos seres imaginários, de borges, tem várias páginas em branco. cheguei a pensar em reclamar para a editora, mas alguma mão invisível me impede, sempre. talvez a do bicho terrível que se esconde na página vazia. ser come-letras. cada vez que o folheio penso que posso encontrar a edição vazia. e temo que o vilão não perdoe a minha estante inteira. mas por que então não ligo para a editora e troco meu exemplar? vocês não podem imaginar a força invisível do bicho.

abiu dos stersa

a árvore de abiu do vizinho dr. stersa, nosso médico, caia para nosso quintal (antes da reforma que criou um quarto de passar, uma garagem e um quartinho de estudos, com móveis de escritório da neiva e uma lousa bonita), era uma árvore tão frondosa... mas o bom mesmo eram os galhos recheados de abiu, aquele tomate amarelo. do lado deles, dos stersa, perto da sombra da árvore, havia um politicamente incorreto barraco com remédios velhos, amostras grátis de um laboratório nosso, dos meninos. quando as construções acabaram com o despejar dos galhos do abiu, eles de vez em quando apareciam com uma coleção de frutas pra gente.

sorvete skimel

'olha o sorvete skimel!' era o grito do sorveteiro, seguido de uma buzinada. cores e sabores sacralizados na memória: o rosa creme holandês, o amarelíssimo creme de ovos. de ovos era fácil. holandês era uma associação mais difícil, misteriosa. quando perdíamos o homem, havia a alternativa de ir à fonte. em cinco quadras, estávamos na porta da skimel-ela-mesma, a fábrica. e todos os sonhos eram possíveis.

jabuticabas do paneguel

paneguel passava com sua carroça pela rua de paralelepípedos chamada tonico de barros. carregava jabuticabões vendidos por litro, medido com lata de óleo maria. a carga protegida do sol com galhos da árvore. era possível apreciar as frutas no varejo, mas também por atacado, alugando árvores inteiras no sítio do homem, bem perto de botucatu. nas árvores, como o barão de calvino, sob as árvores, a palavra certamente não era comedimento. farra de jabuticabas. empanturramento. do sítio, trouxemos até um patinho.

caixa de tipos

professor jacomino deu uma missão ao aluno de 11 anos: desempastelar os tipos de um gaveteiro que a escola ganhara de uma gráfica. tarefa nunca cumprida. letrões nas baias dos hífens. caixa alta na caixa minúscula. o menino certamente caçou alguns alfabetos inteiros. para produzir um cartão de visita, impresso na hora, aos visitantes do joão cursino em open house.

laranja lima

na mesa de fórmica amarela, uma vasilha com laranja lima descascada, uma dezena delas, com polpa também amarela de doçura. maria tratava de descascar as frutas, mesmo tendo pressa de mãe de cinco filhos e contadora juramentada, de anel com pedra rosa. o escritório da coletoria estadual ficava no centro de botucatu, um bosque com fonte luminosa e marquises com colunas revestidas com pastilhas coloridas. da janela, brindava-nos com notas de cinco, com um tiradentes cor de vinho. eu e marco tomávamos sorvete de uva na cinderela, ao lado do cine casino.

chipa do paraguay

a mulher abre a trouxa de pano bem branco e mostra os pães, mistura de milho e leite, com queijo paraguaio. chipa por todo lado, vendida aos gritos. comércio feito até pela janela dos pequenos ônibus coloridos parados no sinal. pão saboroso e barato feito de simplicidade guarani.

fotografia de praga

a máquina fotográfica pifou no primeiro dia de praga. a máquina fotográfica da lembrança é de outra espécie. corri atrás de uma oficininha. comprei uma câmera portátil. a caminho do conserto, um desastre: ao pegar um refrigerante de uma geladeira, desses self service, bati o braço numa cesta de pães e derrubei centenas deles no chão. quis pagar pelo estrago, fui fulminado pelo olhar da gerente tcheca, enquanto ela recolhia a mercadoria na mesma cesta, para futuros clientes. uma fotografia da lembrança.

domingo, 20 de maio de 2007

strogonof para roussa

para retribuir o pasticcio, os peixes vermelhos, os pastéis de massa folhada com coração de feta, a abobrinha recheada, as saladas, resolvemos fazer um strogonof à brasileira para a roussa de cabelos loiros, nossa anfitriã em kamari beach. fomos até uma vila próxima e não conseguimos nada de filet mignon. e o preço seria de muitos dracmas, muitos dólares. carne é de carneiro, de frango. nosso strogonof virou de frango. roussa lambeu os beiços como grega saboreando ambrosia de zeus.

farofa dos mortos

thirasia é uma ilha no egeu, filha de santorini. berço de algumas surpresas. a vila de manolos é alcançada depois de 101 degraus. como uma subida ao céu cercada de azuis por todos os lados. num dos becos e ruazinhas entre as casas brancas, duas mulheres da paróquia nos oferecem copinhos com uma rica farofa, que fazem para os mortos. e é alegria de vivos. com amêndoas moídas, inteiras, grãos de trigo e açúcar. a sobremesa antes do prato principal, num ponto avarandado, não longe da grelha com polvos. comemos também tomates estufados com arroz, beringela com carne e bechamel (a moussaka no sapatinho preto), salada grega especial: com folhas condimentadas da alcaparra. folhas da estação.

içá de silveiras

a caça aos içás faz parte da infância. vidro com insetos fervilhantes. a revoada e o pouso no chão vermelho da igreja de são benedito, em construção. pinçados pelas asas, contra as pinças afiadas. monteiro lobato dizia que a iguaria era o caviar de taubaté. os caboclos ensinam receita oral da bunda frita. em silveiras, um antropólogo-sociólogo-chef louquinho da silva criou um festival para a criatura, com direito à degustação do caviar, com muitíssimo alho. algo forte, refogado e inserido numa farofinha branca. mas antes, palestra sobre o formigão voador, aos pés de um fogão à lenha. eles também caem na piscina de casa, em massaguaçu, e algumas vezes fizeram a alegria de marina e paula.

figo da índia

granada selvagem, com microespinhos, mas de gosto refinado, quando doce das encostas de santorini, protegendo a igreja secular. lembro-me que comprávamos na feira, em botucatu, embrulhados com muito jornal por causa dos espinhos. a cor do seu coração algo ocre, acetinado. nas plantas de pirassununga, escrevemos um g e um a, algo suspeitos. em capri, a ilha de tibério e axel munthe e neruda, um sorvete de figo da índia aplaca o calor.