segunda-feira, 21 de maio de 2007

lições de cortázar

minha professora ana me mostrou no ginásio, pela primeira vez, um texto dos cronópios. e criei um rulhinho, menos do que barulho. ingressei na literatura com a menina que comia chocolates de pessoa. e dá-lhe caixa-preta de augusto de campos e poemas de cassiano ricardo, numa combinação explosiva. tantos foram os bons momentos com o escritor argentino: a invasão de coelhos no apartamento organizado, a casa tomada, a viagem de paris a marselha com carol dunlop, as imensidões do laboratório da linguagem, as formigas nos quadros do belga alechinsky, o desgaste atômico no metrô de buenos aires... com ana, minha mulher, mais cortázar e seus caminhos na cidade dos prêmios e dos cronópios e famas.

temperos de bérgamo

bérgamo, terra de donizetti e dos bronzieri meus amigos, tem um prato calórico mas delicioso com cotecchino. também coelho, polenta e um queijo da terra. riccardo se alimenta à base de arroz, preparando seus risotti até com cerveja. até parece natural de vercelli. fã do atalanta local (e do milan), me levou a um jogo-treino no fim do mundo. nas festas dos partidos políticos, muita cerveja e boa massa em mesas comunais, para regozijo do gramsci do cartaz. liscio e brincadeiras com gansos. num restaurante montado num antigo estábulo, bife de cavalo. pizza de funghi. e bom momentos no café del tasso, no centro histórico da cittá vecchia.

acordeão cigano

comprou-se o acordeão para ajudar o cigano. essa a história que ouvi. e lá fui eu ao moscogliato, maestro de cabeleira branca e ajeitada como beethoven, oculinhos pequenos na ponta do nariz, estudar música, aprender a solfejar, tudo para, depois, tocar. mas achava chato essa ante-sala do sucesso. e nunca cheguei a manejar a sanfona. no grupo escolar raphael de moura campos, na bandinha, toquei chocalho e, depois, fui promovido para a caixa. calça branca, colete laranja, chapéu laranja com penacho, gravata borboleta preta a la batmasterson. competição entre escolas. mais velho, flauta doce com o careca, fotógrafo que registrou bons momentos de são josé. no sobradinho, sua casa, aulas diretamente com o instrumento. e, de kombi, rodada de apresentações natalinas em hospitais.

gramadinho

gramadinho é uma cidadezinha, um distrito talvez, que fica no caminho que nos leva a são miguel arcanjo. gramadinho também foi sinônimo de bolinho de frango, nas nossas providenciais paradas de viagem. família reunida no mercedinho preto com cara de táxi londrino, ou nas vemaguetes branca e cor de vinho. bolinho de massa de milho, frito, recobrindo pedaços inteiros de frango, inclusive miúdos. meu pai gostava quando a surpresa era uma boa moela. bar-restaurante de estrada, nos idos anos 60. e agora uma surpresa: desde dezembro de 2005, depois de uma "sessão tranqüila" na câmara de vereadores de itapetininga, o bolinho de gramadinho foi declarado "patrimônio cultural do município".

sacrifício dos frangos

frangos eram vendidos vivos. mas em casa ninguém tinha a coragem de matá-los. a vizinha dona dulce (mulher do seu herculano) tinha. os frangos eram passados pelo muro. o sacrifício brutal podia ser visto de longe. nós, meninos, lá no portãozinho, mirávamos na vassoura, no fim do corredor. era com ela que dona dulce finalizava a tragédia, quando não conseguia destroncar o pescoço da ave numa boa. a vassoura como uma gangorra no pescoço do frango, os pés, um de cada lado.

livro de borges

a minha edição do livro dos seres imaginários, de borges, tem várias páginas em branco. cheguei a pensar em reclamar para a editora, mas alguma mão invisível me impede, sempre. talvez a do bicho terrível que se esconde na página vazia. ser come-letras. cada vez que o folheio penso que posso encontrar a edição vazia. e temo que o vilão não perdoe a minha estante inteira. mas por que então não ligo para a editora e troco meu exemplar? vocês não podem imaginar a força invisível do bicho.

abiu dos stersa

a árvore de abiu do vizinho dr. stersa, nosso médico, caia para nosso quintal (antes da reforma que criou um quarto de passar, uma garagem e um quartinho de estudos, com móveis de escritório da neiva e uma lousa bonita), era uma árvore tão frondosa... mas o bom mesmo eram os galhos recheados de abiu, aquele tomate amarelo. do lado deles, dos stersa, perto da sombra da árvore, havia um politicamente incorreto barraco com remédios velhos, amostras grátis de um laboratório nosso, dos meninos. quando as construções acabaram com o despejar dos galhos do abiu, eles de vez em quando apareciam com uma coleção de frutas pra gente.

sorvete skimel

'olha o sorvete skimel!' era o grito do sorveteiro, seguido de uma buzinada. cores e sabores sacralizados na memória: o rosa creme holandês, o amarelíssimo creme de ovos. de ovos era fácil. holandês era uma associação mais difícil, misteriosa. quando perdíamos o homem, havia a alternativa de ir à fonte. em cinco quadras, estávamos na porta da skimel-ela-mesma, a fábrica. e todos os sonhos eram possíveis.

jabuticabas do paneguel

paneguel passava com sua carroça pela rua de paralelepípedos chamada tonico de barros. carregava jabuticabões vendidos por litro, medido com lata de óleo maria. a carga protegida do sol com galhos da árvore. era possível apreciar as frutas no varejo, mas também por atacado, alugando árvores inteiras no sítio do homem, bem perto de botucatu. nas árvores, como o barão de calvino, sob as árvores, a palavra certamente não era comedimento. farra de jabuticabas. empanturramento. do sítio, trouxemos até um patinho.

caixa de tipos

professor jacomino deu uma missão ao aluno de 11 anos: desempastelar os tipos de um gaveteiro que a escola ganhara de uma gráfica. tarefa nunca cumprida. letrões nas baias dos hífens. caixa alta na caixa minúscula. o menino certamente caçou alguns alfabetos inteiros. para produzir um cartão de visita, impresso na hora, aos visitantes do joão cursino em open house.

laranja lima

na mesa de fórmica amarela, uma vasilha com laranja lima descascada, uma dezena delas, com polpa também amarela de doçura. maria tratava de descascar as frutas, mesmo tendo pressa de mãe de cinco filhos e contadora juramentada, de anel com pedra rosa. o escritório da coletoria estadual ficava no centro de botucatu, um bosque com fonte luminosa e marquises com colunas revestidas com pastilhas coloridas. da janela, brindava-nos com notas de cinco, com um tiradentes cor de vinho. eu e marco tomávamos sorvete de uva na cinderela, ao lado do cine casino.

chipa do paraguay

a mulher abre a trouxa de pano bem branco e mostra os pães, mistura de milho e leite, com queijo paraguaio. chipa por todo lado, vendida aos gritos. comércio feito até pela janela dos pequenos ônibus coloridos parados no sinal. pão saboroso e barato feito de simplicidade guarani.

fotografia de praga

a máquina fotográfica pifou no primeiro dia de praga. a máquina fotográfica da lembrança é de outra espécie. corri atrás de uma oficininha. comprei uma câmera portátil. a caminho do conserto, um desastre: ao pegar um refrigerante de uma geladeira, desses self service, bati o braço numa cesta de pães e derrubei centenas deles no chão. quis pagar pelo estrago, fui fulminado pelo olhar da gerente tcheca, enquanto ela recolhia a mercadoria na mesma cesta, para futuros clientes. uma fotografia da lembrança.

domingo, 20 de maio de 2007

strogonof para roussa

para retribuir o pasticcio, os peixes vermelhos, os pastéis de massa folhada com coração de feta, a abobrinha recheada, as saladas, resolvemos fazer um strogonof à brasileira para a roussa de cabelos loiros, nossa anfitriã em kamari beach. fomos até uma vila próxima e não conseguimos nada de filet mignon. e o preço seria de muitos dracmas, muitos dólares. carne é de carneiro, de frango. nosso strogonof virou de frango. roussa lambeu os beiços como grega saboreando ambrosia de zeus.

farofa dos mortos

thirasia é uma ilha no egeu, filha de santorini. berço de algumas surpresas. a vila de manolos é alcançada depois de 101 degraus. como uma subida ao céu cercada de azuis por todos os lados. num dos becos e ruazinhas entre as casas brancas, duas mulheres da paróquia nos oferecem copinhos com uma rica farofa, que fazem para os mortos. e é alegria de vivos. com amêndoas moídas, inteiras, grãos de trigo e açúcar. a sobremesa antes do prato principal, num ponto avarandado, não longe da grelha com polvos. comemos também tomates estufados com arroz, beringela com carne e bechamel (a moussaka no sapatinho preto), salada grega especial: com folhas condimentadas da alcaparra. folhas da estação.

içá de silveiras

a caça aos içás faz parte da infância. vidro com insetos fervilhantes. a revoada e o pouso no chão vermelho da igreja de são benedito, em construção. pinçados pelas asas, contra as pinças afiadas. monteiro lobato dizia que a iguaria era o caviar de taubaté. os caboclos ensinam receita oral da bunda frita. em silveiras, um antropólogo-sociólogo-chef louquinho da silva criou um festival para a criatura, com direito à degustação do caviar, com muitíssimo alho. algo forte, refogado e inserido numa farofinha branca. mas antes, palestra sobre o formigão voador, aos pés de um fogão à lenha. eles também caem na piscina de casa, em massaguaçu, e algumas vezes fizeram a alegria de marina e paula.

figo da índia

granada selvagem, com microespinhos, mas de gosto refinado, quando doce das encostas de santorini, protegendo a igreja secular. lembro-me que comprávamos na feira, em botucatu, embrulhados com muito jornal por causa dos espinhos. a cor do seu coração algo ocre, acetinado. nas plantas de pirassununga, escrevemos um g e um a, algo suspeitos. em capri, a ilha de tibério e axel munthe e neruda, um sorvete de figo da índia aplaca o calor.