segunda-feira, 30 de março de 2020
cauldron
soube o que era um caldeirão de ferro depois de conhecer aquele manejado por maga patalógica e madame min, nos quadrinhos. em casa havia um pequeno, reservado a frituras, que vale para uma história pessoal de aromas e texturas. o caldeirão universal esteve cozinhando no tempo, na trilha deixada pela cerâmica e pela cultura do prato único, aquela do 'tudo num pote'. e ai de quem só tinha o caldeirão e nenhuma pedra para a sopa.
quinta-feira, 26 de março de 2020
escadarias maias
estão fechadas há anos as escadarias da pirâmide maia de kukulkán, no yucatán, no méxico, nos eixos das quais uma serpente emplumada aparecia no solstício. o deslizar do réptil nunca escavou a pedra de chichén itza. o escalar das gentes do turismo, sim. ana subiu os degraus vistos antes em sonho. eu estava lá, sentado, pensando talvez na mesa antropomórfica, à espera de um coração sacrificial.
seu jaime
tínhamos sorte de ter o seu jaime como vizinho na rua tonico de barros, em botucatu. ele e a família viviam numa casa avarandada na esquina para a avenida. quando uma injeção era preciso, era hora do jaime farmacêutico percorrer a rua fincando sua silhueta modigliana na calçada. vinha com sua caixinha de latão. e todos sabiam quando uma gripe estava em curso por ali. era na caixa mesmo que a seringa de vidro pegava o fogo da esterilização. o álcool, cheiroso. as ampolas eram quebradas com serrinhas muito brancas, boquinhas em vê. não lembro de choro, o que não significa nada.
rio de chuva na cerâmica
a casa da minha madrinha, dona cidinha, em botucatu, tinha uma barra de cacos de cerâmica vermelha. depois da chuva, essa longa estrada, que virava a esquina, acumulava água, em pequenas bolhas, poças. como era bom reunir esse caudal com a mão, como um rodo fazendo splash na lisura. eu não sabia ainda seu nome, mas netuno já estava ali.
miastemia
uma chuva de choques decifrou o dilema do cansaço. ringue interno. nervos e músculos não trocam nem um oi. falta uma ligação para a sinapse. a pálpebra vai se fechando em copas. os braços mergulham de cansaço numa oração ao chão. o copo de leite fica pesado. é difícil levar o prato ao forno. quatro pessoas entram na sala, mas são duas. mestinon 60 mg.
quarta-feira, 25 de março de 2020
poética
na poética de aristóteles, a vitória da tragédia sobre a épica, homero à parte. rodeando a cratera de vinho e água do simpósio (em qual proporção?), a poesia de mimesis. mas não a de platão, uma outra, não exatamente um retrato.
pins de lênin
já ameacei plugar na gola da camisa meus dois pins de lênin, comprados numa feira na vizinhança da catedral gigante e incensada de sofia, na bulgária. os dois de uma só vez. para ver a cara de neoliberais que nada sabem de almas vintage, nem de estética.
o triunfo das sementes
depois da leitura de the triumph of seeds, do biólogo thor hanson, floresce na gente uma inesperada vontade de colecionar sementes. e logo formamos um pequeno banco genético particular de conservação de espécies. eu separei para secar sementes de laranja, pêssego, damasco, ameixa, cereja e até de avocado hass. descansam numa antiga caixinha de relógio, uma gaveta de papelão, e estão disponíveis para qualquer emergência existencial.
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