sábado, 25 de agosto de 2007

carta de buda

Buda
Csalogany u. 216 11 graus lá fora
1. nov. de 92

Ana,

De uniforme verde (seria uma tenente?), ela entrou na cabine do trem, retocou a maquiagem num espelhinho minúsculo e só depois carimbou meu passaporte. Agora, território húngaro, território dos meninos da rua Paulo. Meu território. Seu.
Estou num apartamento no centro da cidade. O ap. é do Dr. Tóth, que eu não conheço, não. Quem me trouxe para cá foi Püspök. Vim na confiança. Chovia e estava escuro quando cheguei. Embarquei então num carrinho cinza (marca registrada do Leste), afivelei os cintos e Züpct!, voei com miss Püspök para este apartamento. Se não houvesse o Danúbio, a rua Csalogany daria direto no Parlamento, lá em Pest.
Para chegar no quarto andar, entra-se num minúsculo elevador onde mal cabem duas pessoas. O bicho vai suado, faz barulhão. Ao entrar no apartamento, surpresa! Foi como passar da pré-história para a era da informática. apartamentinho simpático. 2 camas com acolchoados trabalhados. Uma estante com livros - todos em húngaro. Tapetes, um rádio, uma televisão, uma cozinha mínima (para o chá, explica miss Püspök). Uma geladeira. Bom banheiro. Tudo quentinho e aconchegante. Tudo pago, acertado antes. Meu nome entrou num caderninho singelo, verde, ao lado de gente do mundo inteiro que usou este mesmo espaço. Püspök anotou até o número do meu passaporte. Mas queria mesmo era dólar. Fez o câmbio, me vendeu sua moeda, vendeu passes do metrô, me deu um mapa da cidade.
Miss Püspök é Judit, engenheira de alimentos que, para livrar um por fora, vai até a estação caçar gente para o bonitinho ap. do Dr. Tóth.
Não precisei procurar por toalhas. Elas estavam sobre a cama. Aprendi os segredos das sete chaves. Negócio acertado, não verei mais Püspök. Deixarei as chaves penduradas no cabide quando partir.
Andei pela cidade o dia inteiro. E é difícil dizer de que ângulo a cidade é mais bonita. A caminho da Citadella, as árvores estão agora amarelas de frio - uma atmosfera que me toca. Fiquei um tempão sentado lá em cima num banquinho, contemplando o Danado Danúbio, que faz travessias e travessuras até o Mar Negro. O Danúbio não é azul como o da valsa. É verde claro comom os olhos de Miss Püspök.
E o festival de pontes, então? Você atravessou todas? Acabei de chegar de Pest pela ponte de pedra, dos leões. Vim em comitiva de húngaros passeando com seus cachorros. Foi uma noite de menos frio. de goulash e páprika.
Já consigo decifrar a multidão de torres da colina iluminada. Mas é mesmo de dia que alguns detalhes se revelam. Mathias Corvinus, rei da Hungria um dia, tinha como símbolo, adivinha!, um corvo. E do corvo não escapou uma parede inteira da igreja, a dele.
Na TV, ouço um filminho antigo do Zorro, em húngaro. Com direito a sargento Garcia (seria sargento a moça que carimbou meu passaporte no trem?)
Fotografei uma Útca com seu nome, que se põe à minha frente a cada esquina desta viagem.
(carta inacabada)

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