sexta-feira, 22 de junho de 2007
ouro preto de marília
conhecer ouro preto com ana, foi como sonho de dirceu com marília, pura poesia de marília de dirceu, com chafarizes de ternas e apaixonadas letras. ficamos numa pousada de barão, o itacolomi no horizonte. as gentes de aleijadinho, a banda na praça tiradentes, um mar encapelado de telhados, os desenhos de alberto guinard (e os bilhetes para a mulher amada), o mundo de pedras do museu, o mundo de tetos das igrejas. oratórios dentro de oratórios. a cactácea ora-pro-nobis com todas as gorduras. a alma, barroca, dispensando temporariamente a simetria das volutas.
segunda-feira, 21 de maio de 2007
lições de cortázar
minha professora ana me mostrou no ginásio, pela primeira vez, um texto dos cronópios. e criei um rulhinho, menos do que barulho. ingressei na literatura com a menina que comia chocolates de pessoa. e dá-lhe caixa-preta de augusto de campos e poemas de cassiano ricardo, numa combinação explosiva. tantos foram os bons momentos com o escritor argentino: a invasão de coelhos no apartamento organizado, a casa tomada, a viagem de paris a marselha com carol dunlop, as imensidões do laboratório da linguagem, as formigas nos quadros do belga alechinsky, o desgaste atômico no metrô de buenos aires... com ana, minha mulher, mais cortázar e seus caminhos na cidade dos prêmios e dos cronópios e famas.
temperos de bérgamo
bérgamo, terra de donizetti e dos bronzieri meus amigos, tem um prato calórico mas delicioso com cotecchino. também coelho, polenta e um queijo da terra. riccardo se alimenta à base de arroz, preparando seus risotti até com cerveja. até parece natural de vercelli. fã do atalanta local (e do milan), me levou a um jogo-treino no fim do mundo. nas festas dos partidos políticos, muita cerveja e boa massa em mesas comunais, para regozijo do gramsci do cartaz. liscio e brincadeiras com gansos. num restaurante montado num antigo estábulo, bife de cavalo. pizza de funghi. e bom momentos no café del tasso, no centro histórico da cittá vecchia.
acordeão cigano
comprou-se o acordeão para ajudar o cigano. essa a história que ouvi. e lá fui eu ao moscogliato, maestro de cabeleira branca e ajeitada como beethoven, oculinhos pequenos na ponta do nariz, estudar música, aprender a solfejar, tudo para, depois, tocar. mas achava chato essa ante-sala do sucesso. e nunca cheguei a manejar a sanfona. no grupo escolar raphael de moura campos, na bandinha, toquei chocalho e, depois, fui promovido para a caixa. calça branca, colete laranja, chapéu laranja com penacho, gravata borboleta preta a la batmasterson. competição entre escolas. mais velho, flauta doce com o careca, fotógrafo que registrou bons momentos de são josé. no sobradinho, sua casa, aulas diretamente com o instrumento. e, de kombi, rodada de apresentações natalinas em hospitais.
gramadinho
gramadinho é uma cidadezinha, um distrito talvez, que fica no caminho que nos leva a são miguel arcanjo. gramadinho também foi sinônimo de bolinho de frango, nas nossas providenciais paradas de viagem. família reunida no mercedinho preto com cara de táxi londrino, ou nas vemaguetes branca e cor de vinho. bolinho de massa de milho, frito, recobrindo pedaços inteiros de frango, inclusive miúdos. meu pai gostava quando a surpresa era uma boa moela. bar-restaurante de estrada, nos idos anos 60. e agora uma surpresa: desde dezembro de 2005, depois de uma "sessão tranqüila" na câmara de vereadores de itapetininga, o bolinho de gramadinho foi declarado "patrimônio cultural do município".
sacrifício dos frangos
frangos eram vendidos vivos. mas em casa ninguém tinha a coragem de matá-los. a vizinha dona dulce (mulher do seu herculano) tinha. os frangos eram passados pelo muro. o sacrifício brutal podia ser visto de longe. nós, meninos, lá no portãozinho, mirávamos na vassoura, no fim do corredor. era com ela que dona dulce finalizava a tragédia, quando não conseguia destroncar o pescoço da ave numa boa. a vassoura como uma gangorra no pescoço do frango, os pés, um de cada lado.
livro de borges
a minha edição do livro dos seres imaginários, de borges, tem várias páginas em branco. cheguei a pensar em reclamar para a editora, mas alguma mão invisível me impede, sempre. talvez a do bicho terrível que se esconde na página vazia. ser come-letras. cada vez que o folheio penso que posso encontrar a edição vazia. e temo que o vilão não perdoe a minha estante inteira. mas por que então não ligo para a editora e troco meu exemplar? vocês não podem imaginar a força invisível do bicho.
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