quinta-feira, 26 de março de 2020

miastemia

uma chuva de choques decifrou o dilema do cansaço. ringue interno. nervos e músculos não trocam nem um oi. falta uma ligação para a sinapse. a pálpebra vai se fechando em copas. os braços mergulham de cansaço numa oração ao chão. o copo de leite fica pesado. é difícil levar o prato ao forno. quatro pessoas entram na sala, mas são duas. mestinon 60 mg.   

quarta-feira, 25 de março de 2020

poética

na poética de aristóteles, a vitória da tragédia sobre a épica, homero à parte. rodeando a cratera de vinho e água do simpósio (em qual proporção?), a poesia de mimesis. mas não a de platão, uma outra, não exatamente um retrato.

pins de lênin

já ameacei plugar na gola da camisa meus dois pins de lênin, comprados numa feira na vizinhança  da catedral gigante e incensada de sofia, na bulgária. os dois de uma só vez. para ver a cara de neoliberais que nada sabem de almas vintage, nem de estética.

o triunfo das sementes

depois da leitura de the triumph of seeds, do biólogo thor hanson, floresce na gente uma inesperada vontade de colecionar sementes. e logo formamos um pequeno banco genético particular de conservação de espécies. eu separei para secar sementes de laranja, pêssego, damasco, ameixa, cereja e até de avocado hass. descansam numa antiga caixinha de relógio, uma gaveta de papelão, e estão disponíveis para qualquer emergência existencial.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

gavinhas enroscadas no meu coração

memória recente: que mulher, senão a minha, pode procurar num dicionário de botânica o nome daquela molinha que se enrosca nas folhas das parreiras e outros seres verdes? gavinhas para sempre enroscadas em meu coração.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

pratos, volver

ana comprou pratos coloridos. um diferente do outro, para uma mesa de almodóvar. tantos sóis à espera de belezas... uns com bolas pretas. outros, motivos de disputa. a mesa à la volver de ana abre o apetite dos sentidos.

sábado, 25 de agosto de 2007

saramago no chiado

fui portador de umas fitas para josé saramago a pedido da jornalista cremilda medina. entrevistas que o escritor dera a rádios brasileiras quando de sua então última visita ao brasil. marquei por telefone um encontro. ele escolheu uma livraria no tradicional bairro do chiado, lisboa. ventava muito e as calçadas de pedras portuguesas estavam em obras, uma areia só. tomamos um cafezinho, breve conversa, entreguei-lhe as fitas e pude colher uma dedicatória no seu então recente 'o ano da morte de ricardo reis'. contei-lhe que meu quarto no residencial horizonte, onde estava hospedado, era um 201, como o do personagem ricardo reis. disse-lhe também que havia percorrido alguns pontos do itinerário de reis. saramago escreveu então na minha edição da editora caminho: ' ao josé guilherme também habitante de um 201 - agora neste portugal lírico e fantasmático, com um abraço do josé saramago'. era 27 de maio de 86. voltei a encontrá-lo no fim do ano, em são paulo, no lançamento do seu 'a jangada de pedra'. antes disso tinha assistido à aula sua e de outros escritores portugueses na eca/usp. e visto pequenas flores amarelas a caminho de lousã, conhecidas como saramago.